(Ventos e desilusões)
Ventos que sopram
Não sei se é pressa
Não sei se é raiva
Não sei se é jeito.
Voluteiam as folhas do chão,
Arrastam areias e despenteiam cabelos
Desfraldam pensamentos que sopram também.
E promessas fáceis incumpridas,
Frases feitas, exageros.
Medalhas de latão
Revestidas de ouro.
Ventos que remexem passados,
E ao sinal do seu abrandar
Deixam vir á tona
Vultos desfeitos
Pelas lágrimas pintadas de dor.
Talvez pelas ditas promessas,
Ou pelas falsas medalhas.
Importantes e necessárias
Como um relógio
Sem os ponteiros,
Minutos que passam lenta,
Lentamente,
Em segundos de angustia.
Espreguiço-me e espanto mais
Os olhos que me olham
Já espantados.
Recomponho-me.
Faltam-me peças.
Ponteiros.
Levaram-nas o vento.
Prossigo sem elas.
Ficam mais umas pelo caminho.
Desfaço-me em horas
Que já não conto.
Porque o vento as leva,
Num tempo que deixa esquecidas
As frases feitas, mas ainda assim ditas,
Na pressa ou na raiva
De um vento que um dia soprou.